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Capítulo V

(Fragmentos Temáticos)

CAPÍTULO V – A BARQUINHA DA SANTA CRUZ

 

 

DANIEL PEREIRA DE MATTOS: FREI DANIEL, UM NOBRE PLEBEU

 A história da Barquinha da Santa Cruz começa de modo singular, marcada pelos elos de amizade, fraternidade respeito entre dois homens, que fizeram a si como sujeitos de um processo histórico inovador e crucial para as antigas tradições caboclas de comunhão da Ayahuasca. Daniel Pereira de Mattos foi recebido por Raimundo Irineu Serra em sua casa, lá conheceu o Daime e dele recebeu a cura e as instruções para o início dos Trabalhos numa simples Capelinha… edificada ao amor de São Francisco.

A jornada de Daniel Mattos também tivera origem nas terras do Maranhão e de lá literalmente zarpou nas águas da vida, navegando em diferentes marés e igarapés: alguns com águas turbulentas, outros com mansidão. Em sua travessia, por vezes as ondas o levou a portos que lhe causaram dor, mas numa dessas paragens conheceu o velho timoneiro Irineu Serra, encontrando o apoio para revigorar sua saúde e equilibrar as diversas esferas do viver, se ergueu no alto da tempestade, renasceu e fez nascer na Terra uma nova vertente no ‘Rito de Comunhão da Ayahuasca’. Palavras podem ficar emocionadas… para muitos, mas pequenas em face às epopeias travadas. Nos longínquos e conturbados anos 30 do século passado, nas distantes paragens do Acre, uma amizade selou o firme compromisso entre os fundadores das tradições que transpuseram, em definitivo, o rito caboclo à seara urbana.

Quando Daniel Pereira de Mattos encontra o Daime, já havia percorrido muito caminho, trabalhando como marinheiro, músico e carpinteiro… era também boêmio e afeito às serenatas noturnas que rasgavam o véu da madrugada, regadas ao álcool e todos os prazeres dados à ocasião, e também aos dissabores destas experiências. Ao ser recebido no salão do ‘Santo Cruzeiro’, Daniel sofria com os sinais da boemia – o vício do álcool e doenças provocadas pelo alcoolismo. Tempos depois se fez grande na simplicidade e pelas mãos de Mestre Irineu recebeu o Daime que iniciaria os Trabalhos da Capelinha de São Francisco das Chagas, consagrando as firmes raízes de uma forte tradição espiritual, que desde a origem devota respeito ao antigo sacramento xamânico e à diversidade espiritual da humanidade, congregando em seu rito, o sincretismo das matrizes indígenas, africanas e europeias, trazendo novo movimento ao culto cristão por um hibridismo singular.

As recordações são muitas sobre o encontro dos dois maiores vultos na história do Daime, em ambas as linhagens, a reminiscência do passado é narrada com alegria e saudosismo, prova viva das pegadas de um passado que foi edificado com honra e respeito. Ressaltamos que nos idos de 1945, Mestre Irineu e sua comunidade passavam por intensas mudanças, esta ocasião foi àquela em que o velho combatente havia suspendido os Trabalhos do Daime e deixado a Vila Ivonete. Nestes dias demonstrou a força de um caráter altivo, indo além das fronteiras humanas da segregação, abençoou a missão de Daniel Pereira de Mattos e entregou em seu punho, o Daime feito por suas mãos: exemplo maior de honra e respeito são raros de se encontrar num mundo marcado pela ganância, hipocrisia e egoísmo – que todos os herdeiros destas casas e de todas as outras possíveis, vejam esta lição e apreendam o valor da honra em ação.

Por estes méritos, nasceu a Capelinha de São Francisco das Chagas, edificada com simplicidade numa choupana de barro e palha, atendendo aos doentes, necessitados e aflitos deste mundo e de outros também… numa Obra de Caridade: a Barquinha da Santa Cruz, como mais tarde foi identificada – uma tradição com doutrina e rituais específicos, orientados por um conjunto de ‘Hinos e Salmos’ inspirados na ‘luz do Daime’ por Daniel Pereira de Mattos. Sua maestria é reconhecida por seus discípulos, o que faz com que hoje o reverenciem como Mestre, contudo em vida ele nunca fez uso deste título, se identificava simplesmente como irmão e comandante da missão – em verdade, o primeiro soldado.

 

5.1 – ORIGENS NO MARANHÃO

 O líder desta saga nasceu no Maranhão em 13 de julho de 1888 – dois meses após a abolição da escravidão – na freguesia de São Sebastião de Vargem Grande – berço de devoção, romarias e festejos populares a ‘São Raimundo Nonato’. Daniel, um homem negro, filho de Thomás Pereira de Mattos e Anna Francisca do Nascimento Mattos, a freguesia de seu nascimento era uma antiga feitoria de escravos… logo, as raízes africanas em sua cultura e educação, eram mais do que latentes, e sim, centrais. As informações sobre sua vida também são escassas, contudo, nesta pesquisa incluímos um passo além! De início já temos a confirmação, por registros públicos, do nome de seu batismo e de sua data de nascimento. Por outro viés, ainda recebemos um registro oficial por parte de seus discípulos, através da organização de um memorial, a Casa de Memória Daniel Pereira de Mattos, que organiza informações, depoimentos e documentos históricos. Em 2005, centenário da primeira visita do marinheiro ao Acre, este esforço culminou com a escrita da obra “Mestre Daniel – História com a Ayahuasca”, organizada por Sílvio Francisco Lima Margarido e Francisco Hipólito de Araújo Neto e publicada pela Fundação Garibaldi Brasil.

Outra fonte de pesquisa apresentou-se de modo bem salutar, por agregar em referências históricas, inúmeros relatos, depoimentos e documentos – escritos e orais – a respeito do processo cultural de constituição do novo rito, esta é a dissertação de mestrado em História do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco, por autoria de Rosana Martins de Oliveira: “De Folha e Cipó é Capelinha de São Francisco: a religiosidade popular na cidade de Rio Branco – Acre (1945-1958)”. A pesquisadora Rosana Martins de Oliveira, que já nos acompanha desde a saga de Raimundo Irineu Serra, trouxe à luz do público em 2002, grandes e relevantes informações a respeito da trajetória de lutas e embates de toda a comunidade no caminho de afirmação da religiosidade popular e confirmação do ato de fé pelos discípulos da Capelinha de São Francisco, incluindo também um riquíssimo acervo documental da ‘Doutrina’ por ‘Hinos, Salmos, Preces e Romarias’: uma verdadeira obra-prima! Em sua pesquisa, Rosana de Oliveira cita o apoio, e ainda agradece a colaboração, de dirigentes e integrantes da comunidade, incluindo o senhor Francisco Hipólito de Araújo Neto, presidente do Centro Espírita de Culto e Oração “Casa de Jesus – Fonte de Luz” (entidade herdeira da organização original) – em suas palavras, a pesquisadora recita na primeira nota de Agradecimento: “A Francisco Hipólito de Araújo Neto, Presidente da Capelinha de São Francisco, grande irmão amigo, sou grata pelo estímulo e confiança ao me ter aberto as portas do conhecimento e da pesquisa sobre a vida de Daniel Pereira de Mattos” (OLIVEIRA, 2002: 07).

 

5.2 – A CHEGADA AO ACRE

 Em 1905 ocorre um grande marco em sua vida: realiza pela primeira vez uma viagem ao Acre, território recém-incorporado ao Estado brasileiro, por isso o esforço de guerra em enviar soldados à defesa do território, uma vez que o medo do contra-ataque boliviano era constante. Os sonhos de riqueza com a borracha eram grandes, as promessas maiores ainda, no mínimo, era uma terra de oportunidades que via à sua frente, um lugar a ser criado… O que hoje é a capital do Estado, naquela época era a Villa Rio Branco, um povoado cravado no meio da floresta com um pouco mais de vinte casas às margens direita do rio Acre – e raras eram as casas que não fossem de barro e palha: paxiúba.

 

5.3 – O ENCONTRO COM O DAIME

 Por sorte, nosso aventureiro foi acolhido no berço do Daime pelo velho timoneiro da saga, assim iniciou seu longo tratamento, que perdurou por oito anos de intensos Trabalhos e magnífica transformação, batalha que contou com altos e baixos… momentos de ascensão, quedas e recaídas, mas que manteve a direção do leme em atravessar a tempestade do mar revoltoso e dos corações aflitos, contando sempre com a palavra amiga de Irineu Serra e o exemplo de sua maestria, coragem e esperança. Ambos já se conheciam, conterrâneos, fizeram amizade em algum momento passado, entre as idas e vindas da história, todavia, não temos o registro de como, por ventura, tenha nascido tal relação, apenas que até este trágico acontecimento, Daniel nunca havia tomado parte nas ‘Sessões do Daime’ ou mesmo experimentado a Ayahuasca entre os caboclos da floresta. No auge de sua dor, sofrimento e vergonha, sem entregou sem forças à ruína… ao saber do estado de seu amigo, Mestre Irineu pediu a alguns dos irmãos de sua comunidade, que fossem da Vila Ivonete ao Papôco resgatá-lo: esta travessia ocorreu num carro de boi, manifestando com a simplicidade dos fatos, o âmago da experiência sagrada de resgate, cura e fraternidade.

 

5.3 – A SAGRADA REVELAÇÃO DO LIVRO AZUL

 Dentre o vão das lacunas na narrativa, algo fenomenal se preservou! Conta-se que no intercurso do tratamento, Mestre Irineu ministrava pequenas dosagens de Daime a Daniel Mattos, talvez por medidas de cautela defronte à debilidade do corpo físico, ou por orientação espiritual em como proceder à ‘iniciação’, todavia, o iniciante num certo momento pediu para comungar um “copo cheio”, desejando vivenciar um Trabalho mais forte, pois era isto o que a intuição lhe revelara. Atendendo ao pedido, Mestre Irineu assim procedeu e o acompanhou naquela jornada espetacular: foram dois dias consecutivos de Trabalho… ao final a mensagem havia sido anunciada, uma antiga recordação de sonhos da infância lhe voltava à recordação: seres de luz lhe entregava um Livro Azul anunciando que essa era a ‘Missão’ que o mandaram cumprir sobre a Terra. Este sonho vinha dos longínquos dias de menino e ali… diante das maravilhas de um Trabalho sagrado com a Ayahuasca, os mesmos seres de luz, apresentando-se desta vez na condição de soldados de um batalhão celestial, entregaram o Livro Azul em suas mãos, consagrando a revelação com as seguintes palavras:

 

AQUI ESTÁS A MISSÃO QUE TENS QUE CUMPRIR.

VOCÊ TEM QUE SAIR DAQUI, QUE NÃO É A TUA LINHA E ABRIR OS TEUS PRÓPRIOS CAMINHOS ESPIRITUAIS EM CONFORMIDADE COM O QUE ESTÁ NESTE LIVRO.

 

5.4 – O INÍCIO DA MISSÃO

 Mestre Daniel chamou as Forças Armadas que vinham do céu para combater o mal em todos os mundos, a missão recebe a patente deExército de Jesus: seus membros, soldados do batalhão divino para servir aos Trabalhos de Caridade: o atendimento aos necessitados que percorriam longínquos desertos a fim de encontrar a cura – a estes nos referimos também aos irmãos em procissão com a ‘Alma dos Mortos’, uma vez que as Obras de Caridade da Capelinha eram dedicadas a eles pelas premissas de um Trabalho de expansão da consciência com a incorporação de espíritos pelas raízes africanas e caboclas.

A ordem da missão já estava anunciada e determinada pelos seres de luz que trouxeram o Livro Azul, o serviço era de redimir os sofredores e batizá-los com um nome cristão em frente ao altar de São Francisco, os soldados celestiais amparavam as batalhas e os aparelhos humanos eram preparados para receber os mentores e doutrinar àqueles de estirpe rebelde – ainda presos aos mundos de sombra da ilusão. O Livro Azul é a fonte de sabedoria e inspiração, a matriz da Doutrina da Barquinha e somente pelo trabalho árduo de seu mestre fundador, os segredos do Livro Azul seriam codificados e transmitidos à humanidade, assim nasceu a ‘Romaria de Salmos’ do Mestre Daniel, que identifica seus ensinos na forma de um “Hinário” inspirado por sua consciência. 

 

Esta Casa é de Jesus

Esta Casa é de Jesus

E da Virgem Mãe da Conceição

Esta Casa e esta Luz

Que nos alimpa o Coração

E nos eleva alma em Deus

Para receber santa benção.

 

Esta Casa é de Jesus

E da Virgem Mãe da Conceição

Vamos se firmar a Jesus

E a Virgem da Conceição

Vamos adorá-los com amor

Dentro no culto do coração.

 

Vamos pedir a Jesus

E a Virgem da Conceição

Que nos livre do maldito

E dele toda a tentação.

Nos deixem paz, nos deixem amor

E vossas Santíssimas Bençãos.

 

Eu sempre rogo e sempre peço

A Deus e a Virgem da Conceição

Que me firmem neste caminho

E me dê santa decisão

E que eu na santa paz

Possa seguir com meus irmãos.

 

 5.4 – OS RITOS DE CURA E EXORCISMO

 A expressão maior de sua cura veio com o modo de vida franciscano, em renúncia ao “mundo” e as tentações do “maldito”. Viver de modo simples lhe traria a honra almejada, o homem estava entregue ao Trabalho e tão-somente a ele seu coração traria versos e melodias em louvor a Deus e toda magia da encantaria sagrada do sincretismo cultural brasileiro – agregando valores, cultos e símbolos das matrizes fundamentais de nossa história, a Capelinha de São Francisco rezava o terço romano, incorporava santos, batizava eguns, doutrinava almas, louvava os Salmos, cantava Hinos e consagrava a Ayahuasca: de um sincretismo espiritual se manifestava a cultura híbrida da história. A vertente pluralista da Barquinha se firmou no tempo como um dos elos fundamentais de sua identidade, reconhecendo no interior do rito a riqueza herdada pela fé popular, inclusive pela expressão maior de uma capela, que desde outrora se converteu em templos erguidos pelas mãos e devoção do “povo”, sem licença ou ordem do padroado diocesano – herança de toda a história colonial e imperial do Nordeste, que presentemente brotava naágora de um seringal.

  

5.4 – PRIMERIA IRMANDADE

 Outros irmãos foram chegando à ordem, os primeiros mensageiros transmitiam as boas novas de paz e curas, assim em treze anos a Capelinha cresceu em graças e bênçãos, enfrentando adversidades que não eram pequenas, a exemplo simples da travessia por aquela pinguela sobre o igarapé Fundo. Tornou-se costume levar roupas secas em sacos plásticos, pois em muitas estações, os adeptos atravessavam as águas a nado, já que não havia outro modo. Este elemento na narrativa da comunidade representa um turbilhão de mensagens e símbolos, que cada um possa apreender dele, aquilo que melhor lhe expressa o legado do passado… o legado do sagrado.

Entre os nomes já citados, outro artigo da Casa de Memória na mesma obra, esclarece que alguns postos de trabalho foram atribuídos aos discípulos, sendo José Joaquim da Silva consagrado como “Pastor das Almas” – continuando seu trabalho inclusive após sua passagem ao plano espiritual; Agostinho Henrique de Paiva, responsável pela busca de Daime: identificação das plantas nativas, coleta e busca; Elias Nacif Correa Kemel (com diferente grafia para o segundo sobrenome), mestre de obras da igrejinha em alvenaria.

Outros são arrolados nesta citação, que agora completamos em respeito ao legado destes que foram os pioneiros da tradição, mantendo a chama da memória viva na recordação daqueles que vierem conhecer o passado – a ordem de nomes a seguir é a mesma adotada pela Casa de Memória: Benedita Alves Ferreira Kamel, Manoel Fernandes de Oliveira, Maria Henrique de Oliveira, Antônio Geraldo da Silva, Antônia Ferreira da Silva, José Luiz da Silva, Antônio Lopes da Silva, Manoel Hipólito de Araújo, Francisca Campos do Nascimento (Dona Chica Gabriel), Inês Maria Porto, Francisca Maia de Oliveira, Ernesto Júlio de Oliveira, Milton Brígido da Silva, João Amâncio dos Santos, Maria do Carmo da Silva, Cecília Alves da Silva, Olinto Alves da Silva, João de Deus Filho, Gregório Nobre de Oliveira, Francisca Josino de Melo (Dona Chiquita), Alípio da Silveira, José Gabriel do Nascimento, Francisco Gabriel do Nascimento, Rosa Henrique de Paiva, Angelino José da Silva, Jerônimo Alves da Silva, Maria José Correa, Francisco da Silva Souto, Jovano Martins da Fonseca, Maria Alves da Silva, Rosa Cândida Cabral, Firmino dos Santos Borges, Antônia Carneiro de Lima, Leonor Santos da Silva, Joana Torquato de Araújo, José Honório Alves, Maria Sousa Matos, Ademar Sales de Oliveira, Maria Rosa (Maria Baiana) e Maria de Lourdes Lima de Almeida (Casa de Memória, 2005: 43).

 

5.5 – AS ROMARIAS E PENITÊNCIAS

 Um elemento novo ao culto será de importância cabal: as Romarias – acompanhadas pelas Penitências. Nasce um novo calendário de Trabalhos com o Daime, mostrando novamente uma especificidade em relação à ‘Doutrina de Mestre Irineu’. Por gênese popular, as romarias se formaram no Brasil caboclo como celebrações e festejos dedicados a santos padroeiros e homenageados em datas específicas, todas estabelecidas pelo próprio calendário romano e ratificadas pela Corte de Lisboa durante a colonização. Esta herança cresceu e perdurou no imaginário social, cumprindo outros papéis, além daqueles institucionalizados pela hierarquia eclesiástica – pelos imensos terreiros do Brasil, a festa alcançava sentidos próprios a cada comunidade, juntos do culto aos santos, promessas, procissões, rezas, ladainhas, terços, batizados… o “povo” celebrava também o culto aos antepassados, seres encantados e Orixás, mesmo que inseridos no quadro de significados e símbolos cristãos. Em festas de alegria simples e benfazeja, as romarias também se converteram, celebrando no seio da vida popular, momentos de integração comunitária e estações do ano, com folclore, danças, músicas e até um pouco de cachaça.

(…)

São Francisco das Chagas, além de depositário da fé devocional, configurava-se no quadro de significados do rito de Frei Daniel como o verdadeiro protetor da ordem e da comunidade, sendo dele a missão de conduzir cada passo dos devotos, rumo à salvação aos pés do Senhor. Um santo pessoal e partícipe dos desafios íntimos de cada um… um santo humano que compreendia os sentimentos humanos, inclusive àqueles relacionados ao que na Barquinha, convencionou-se chamar de pecado: pela fé, São Francisco é quem abençoa cada irmão a cumprir com firmeza todas as “Santas Romarias”, perdoando as culpas e dando a salvação. Vejamos a expressão poética de Frei Daniel na devoção a São Francisco em sua súplica de perdão:

 

 

Hino Rogando o nosso perdão

1

Meu Senhor São Francisco das Chagas,

Vós sois o meu protetor,

Ajudais em minha caminhada,

Até os pés do Senhor.

2

Meu Senhor São Francisco das Chagas,

Na luz é o meu professor,

Ensinais como eu devo seguir,

Firme com todo amor.

3

Com o amor que tenho a Deus,

E a Sempre Virgem Maria

Cumprindo com toda firmeza,

Todas as santas romarias.

4

Estas santas romarias

São luzes que nos alumiam,

Junto ao nosso Salvador,

Nas santas glórias um dia.

5

Meu Senhor São Francisco das Chagas,

Rogais por mim e meus irmãos,

Que perdoe as nossas culpas,

E nos dê a nossa salvação.

6

Salve São Francisco das Chagas,

Saudemos com todo amor,

A Sempre Virgem Maria,

E ao nosso Salvador.

Coro

Ó meu bom Protetor,

Nos guiais nesta luz,

Nos retirais desse degredo,

E nos leve para Jesus.

 

 

5.6 – INTERVENÇÃO SOCIAL E POLÍTICA DE FREI DANIEL

Os desafios do santo padroeiro eram grandes nesta lida, e tão grandes também as demandas do líder da missão, que não se detinha apenas em um culto fenomênico – abstrato – para curar as moléstias do mundo, a visão social de Daniel Pereira de Mattos era altiva e muito objetiva: por meio de toda sabedoria e de todos os poderes alcançados no plano espiritual, sua intervenção no “mundo dos homens” era necessária e urgente, pois as Obras de Caridade começaram a atender todo o tipo de gente das terras que conhecia tão bem como a palma de sua mão, os problemas eram velhos – e já calejado estava o marinheiro.

No decorrer dos 13 anos de sua Missão, Mestre Daniel organizou um povo com disciplina e harmonia, intervindo perante o poder público para a solução das calamidades que afligiam a “pobreza”, conforme o próprio escrevera deveras vezes ao então Interventor do Território, Major José Guiomard dos Santos – cinco cartas no ano de 1946 e uma em 1956, quando o Major já era Deputado Federal. Este, já sabedor dos princípios de honestidade e trabalho que acompanhavam “o povo do Daime”, recebera Daniel Pereira de Mattos por três ocasiões em seu gabinete no Palácio do Governo, a fim de tratar pessoalmente das questões postas nas cartas, demonstrando, no mínimo, respeito. Estes encontros históricos ocorreram com a seguinte ordem: o primeiro em 23 de maio de 1946; o segundo em 30 de maio de 1946; o terceiro em 19 de janeiro de 1947 (Rosana de Oliveira, 2002: 94 – GABINETE do Governador. O ACRE. Rio Branco, n. 769, p. 2, coluna 5, 23 maio 1946; GABINETE do Governador. O ACRE. Rio Branco, n. 770, p. 3, coluna 5, 30 maio 1946; GABINETE do Governador. O ACRE. Rio Branco, n. 803, p. 2, coluna 3, 19 jan. 1947).

(…)

A primeira carta, datada de 1º de maio de 1946, marca a apresentação de Daniel Pereira de Mattos em sua condição de trabalhador e simples operário, devoto de Deus e homem da terra, incitando a autoridade a abraçar a pobreza com estima e zelo… enxergando suas causas e necessidades. Não por acaso, a carta foi escrita no Dia do Trabalhador – reafirmando a valoração do trabalho e do trabalhador na perspectiva de uma justiça social, pelas palavras de Rosana de Oliveira, que expõe o documento histórico nas páginas 93 e 94 de sua dissertação (OLIVEIRA, 2002: 93-94 – MATTOS, Daniel Pereira de. [Carta] 1 maio 1946b. 3 p., p. 1-3. Rio Branco [Acre] [para] Governador Delegado do Território do Acre, Major José Guiomard dos Santos, Rio Branco):

 

 

Exmo Snr Major

Guiomard dos Santos

DD Governador desteTerritório –

“Cordiais Saudações”

Major Guiomard dos Santos

“Eu Daniel Pereira Mattos”

um simples operário [...]

Sei que V. Exa é o

Homem amigo da pobrêsa,

E do operário. Sei que

V. Exa é o homem da luta

Para vê tudo evoluir dentro

da faina do trabalho a luz

Que imortalisa o nome do

Homem para século e séculos.

“Confio em Deus e digo em

Verdade que o lavrador o

Operário dêve ser abraçado

Com estima e zêlo. Por que

Uns preparam o palácio, e

Os outros suprem com

O conforto [...]”

Estima se assina – em 1º de

Maio de 1946 o sincero abraço;

Daniel Pereira Mattos (assinatura)

 

5.7 – A IDENTIDADE ESPIRITUAL DE FREI DANIEL

 Indo além em suas pegadas, Frei Daniel apresenta-se aos discípulos em sua manifestação espiritual, consagrando através do Hinário, os atributos recebidos do ‘Astral’ no cumprimento da missão: assim ele é um Zelador, um Patriarca, um Sacerdote, um Pastor e um Professor. A fim de facilitar a compreensão dos leitores, exporemos os fragmentos dos Hinos a seguir pela mesma disposição apresentada por Rosana de Oliveira nas páginas 73, 74 e 105 da dissertação de sua pesquisa, sendo que são referências a quatro Hinos e um Salmo: 1º – Zelador: Hino formas do amor de Deus (73); 2º – Patriarca: Hino A volta de Jesus (73); 3º – Sacerdote: Hino sou Sacerdote (73-74); 4º – Pastor: Salmo (74); 4º Professor: “Hino O professor e suas instruções” (105).

 

5.8 – O GRANDE ROGATIVO AO SAGRADO

 Afirmando sua autoridade perante a população de Rio Branco, intervindo na realidade à sua frente, manifestando suas premissas espirituais e difundindo a comunhão da Ayahuasca com a implantação do novo rito, havia chegada a hora de um alçar um no voo… e assim Mestre Daniel estabelece um novo panorama em 1950: faz uma promessa de não visitar a cidade durante 10 anos. Suas flechas haviam sido lançadas e agora o velho peregrino, Zelador da Capelinha, esperava dedicar sua atenção exclusivamente à formação espiritual da comunidade, conquanto, ainda paira no vão da narrativa uma forte interrogação: quais foram as premissas desta promessa? Quais fundamentos e súplicas de uma graça a ser obtida… Esta passagem é subitamente citada por Rosana de Oliveira e por todas as fontes pesquisadas, apenas encontramos o mesmo modo de descrição: menção da promessa e seu cumprimento até o final de seus dias, oito anos após. Quando vivo, Mestre Daniel permaneceu isolado, uma vez que veio a falecer em 08 de setembro 1958 (OLIVEIRA, 2002: 94 – MATTOS, op. cit., 1956b, p. 2.).

 

5.9 – OS CAMINHOS DOS ANOS DE OURO

 Os anos 50 são considerados os “anos de ouro” da Barquinha, pois foram neles que o campo doutrinário da tradição se consolidou pela inspiração do grande Hinário e acolhimento de irmãos que se tornaram líderes importantes na posteridade, sem os quais a implantação do novo rito teria naufragado, destacando-se Antônio Geraldo da Silva, Manuel Hipólito de Araújo, Francisca Campos do Nascimento (Dona Chica Gabriel), Antônio Lopes, João de Deus, Gregório Nobre e Francisca Josino de Melo (Dona Chiquita). A partir de uma leitura radical da realidade, cada adepto é instado a promover uma transformação radical em sua vida, elemento que muitas vezes pode causar transtornos no seio cotidiano das relações domésticas, o grupo mais próximo tende a receber as mudanças com estranhamento, ainda mais quando se relaciona com o uso de plantas de poder… ainda mais no contexto social e histórico do Acre nos anos 50. Alguns dos fatores que perseguiam aos membros da comunidade decorriam destes sintomas de “desajustes” nas relações pessoais, caso extremo foi vivenciado pelo senhor Manuel Hipólito de Araújo.

(…)

A respeito das relações políticas com o Major Guiomard dos Santos, tampouco há registro de alguma visita deste à Capelinha de São Francisco, notando que o isolamento de Frei Daniel foi rompido somente em 1956, pela ocasião de uma última carta dirigida ao aliado que agora ocupava o posto de Deputado Federal. Neste precioso documento, Daniel manifesta em público suas últimas palavras, cerca de dois anos antes de sua partida, intitulando a correspondência com os dizeres “Dados Biográficos do meu viver aqui neste território”, portanto… com a palavra, “o plebeo” Daniel Mattos:

  

‘Dados Biográficos do meu viver aqui

neste território’.

A primeira viagem que fiz ao Acre (…) foi em 195 [1905].

Era eu marinheiro da Marinha de Guerra

Brasileira. Viemos traser batalhões em

Defesa a terra que hoje piso [...]

(…)

Excia tudo o que escrevo é uma pura verdade.

Testifico lhe com sagrado nome de Deus –

Todo poderoso. [...]

Do plebeo Daniel Mattos.

 

 

5.10 – NOVOS DESAFIOS APÓS A PARTIDA DE FREI DANIEL

 No decorrer deste trabalho ressaltaremos ainda o grande legado de Frei Daniel pelas atitudes honrosas e dignas dos discípulos da tradição já no século vinte e um (XXI), por ora nos resta relatar um pouco do trajeto de consolidação da Barquinha nos anos seguintes, mas esta é outra história… que merece uma visão especial. Narraremos àquilo que é pertinente a este “causo”, com destaque primaz à força destemida de resistência daqueles que prosseguiram na missão.

O primeiro fator a ser analisado situa-se na sucessão, uma vez que ninguém aguardava o momento, um estado de clamor se abateu sobre a comunidade. A jornada do líder a frente da comunidade fora intensa, porém curta. A obra existia de modo informal, ainda denominada conforme seu batismo, Capelinha de São Francisco das Chagas, sem registro em cartório, sem fardamento, sem regimento, sem diretoria, sem hierarquia de poder humano. Não havia um herdeiro nato, todos estavam em formação e preparação, muitos ainda arraigados aos valores sociais de poder, logo um conflito se anunciava pela frente, como aconteceu. De acordo com os relatos do episódio, mesmo sem definição alguma por parte de Frei Daniel, “alguns irmãos” apareceram rogando pelo direito de sucessão, argumentando inclusive, que receberam orientação divina enviada pelo líder ou por São Francisco – infelizmente no trajeto da história, o depoimento destes se perdeu, hoje não conhecemos seus argumentos e tampouco seus nomes, a não ser por um caso isolado que será narrado em breve, ou por relatos de outros que não os apoiaram.

 

5.11 – A RESISTÊNCIA AO COMANDO DE EXTERMÍNIO

 Na noite de quarta-feira em 20 de abril de 1965, os policiais perpetraram a invasão da casa do Presidente da entidade, perfilando todos os presentes com as “mãos para trás” e obrigando-os a se deslocarem deste modo para dentro do templo, insultando-os com “as maiores baixezas”, dizendo além de tudo que tinham “ordem verbal do sr. Juiz de direito Lourival Marques para fecharem a casa [capela] e levarem a chave e que o presidente com os seus familiares, tinham apenas 10 dias para todos se retirarem da cidade, sob pena deles voltarem com latas de gazolina para tocarem fogo em todas as casas”. Claro, esperar alguma norma civilizada no Brasil em 1965, seria esperar muito para um Estado que promovia diretamente atentados de terror contra sua própria população… de tal modo, não seria diferente nos arredores de Rio Branco, quando o ódio e o preconceito à Ayahuasca chegaram neste limiar tão sério.

 

(…)

Uma noite de terror que foi vencida com humildade e perseverança – terror este que é reflexo da própria escuridão de uma invasão domiciliar à sombra da lei, inclusive com a participação de um “Juiz de Direito” comandando a ação do grupo de extermínio. A resistência dos pioneiros da tradição deve ser reconhecida em sua essência, por isso registramos nestas páginas o acontecimento de acordo com a narração da comunidade no ano de 1972. Por ventura, este mesmo ano de 1965 também foi marcado com triunfo pelo 1º Parecer Científico do Estado Nacional sobre a “toxicologia” da Ayahuasca. Cerca de um mês após a invasão, em 21 de maio, o Secretário de Saúde e Serviço Social do Acre, Dr. Carlos Meixeira Afonso, encaminha ao Chefe do Serviço Nacional de Fiscalização de Entorpecentes, Dr. Professor Décio Parreiras, amostras de cipó e de folhas constituintes da Ayahuasca para análise química, acompanhados do seguinte ofício (OLIVEIRA, 2002: 79 – GOVERNO DO ESTADO DO ACRE. SECRETARIA DE SAÚDE E SERVIÇO SOCIAL. SERVIÇO DE ADMINISTRAÇÃO. SECÇÃO TÉCNICA. SSS/OF/Nº 208. Rio Branco, 21 maio 1965. 1 f)…

 

(…)

 

Por estes meios, a história da Ayahuasca no Brasil esteve selada pela primeira vez com a chancela do Estado, referendando sua comunhão em ritos espirituais “como já há muitos anos vem sendo feito em nossa região” – certamente já havia alguns anos que esta cultura havia florescido nos vales sagrados da Amazônia… e de modo mais recente, vivia o fenômeno de transposição de seu legado a outras esferas da experiência humana. Ainda em 1966, o saudoso Mestre Irineu, timoneiro da travessia, sentiu um saboroso sentimento de dever cumprido, a saga estava próxima ao seu termo central e o destino havia sido escrito pelas mãos de quem teve a coragem de ousar.

 

5.12 – FORMAÇÃO DOUTRINÁRIA E RITUALÍSTICA

 

No decorrer de tantos fatos marcantes, a comunidade espiritual manteve a firme crença de ser permanentemente guiada pelo fundador. Suas orientações vinham através de instruções espirituais através de “revelações” compartilhadas em Trabalhos com o Daime e atos de fé pelas incorporações: sinais postos nas recordações da memória coletiva, que agora emergiam do oculto. Em meio a combates decisivos para a sobrevivência da tradição, nasceram as premissas do sagrado e do divino, que deram vida ao rito contemporâneo da Barquinha, incluindo símbolos e emblemas que demarcam sua identidade na travessia das eras, como o fardamento, o bailado e a mística do templo em sua arquitetura esotérica: em 1969 efetua-se a edificação do Cruzeiro em alvenaria; em 1973, o parque com as muretas, o Coreto, o Barquinho, o Salão de Bailado com as 12 Colunas em seu em torno, os bancos e a cantina; em 1976, o Castelo Azul e a residência do presidente – para tanto, foi criada uma olaria pela comunidade, que posteriormente chegou até mesmo a prestar serviços para a Prefeitura de Rio Branco, se transformando em fonte de renda (Casa de Memória, 2005: 32).

 

(…)

 

Todos estes elementos e muitos outros que se apresentam no intercurso das investigações, só estarão abertos quando os depositários da memória abrirem o baú das recordações, respeitando os mistérios sagrados da tradição. Ponderamos que a história da missão se expressa por uma grande beleza poética em sua travessia humana e divina, nada tendo a esconder ou permanecer escondido dos olhos de quem admira o legado por sua honra e dignidade, e ainda enseja por completar a narrativa, de tal modo, conclamamos a reflexão todos àqueles que nos dias de hoje já realizam grande obra em criar a Casa de Memória, o baú dos ainda guarda grandes tesouros secretos, que poderão inspirar tantas outras travessias no campo do conhecimento e das buscas astrais, tal como um dia o Professor Daniel Pereira de Mattos se lançou aos desafios da jornada, vencendo a si e a muito mais.