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Capítulo VI

(Fragmentos Temáticos)

CAPÍTULO VI – A UNIÃO DO VEGETAL

 

 

JOSÉ GABRIEL DA COSTA: AUTOR DO CONSELHO

Com a licença… do tempo, viemos narrar estas palavras – cumprindo com o propósito de investigação em amor à sabedoria. Nada mais nos falta, a não ser dar curso ao que já está em curso e assim avançar no caminho de análise e reflexão a respeito da historicidade do ‘Rito de Comunhão da Ayahuasca’ no Brasil, por isso traçaremos, nestas simples páginas, a narrativa que for possível sobre a formação da União do Vegetal, a terceira tradição forjada nas fornalhas dos seringais.

Por maiores que tenham sido nossos esforços de investigação nos dez anos que marcam a pesquisa, a narração sobre história da União do Vegetal ainda permanecerá coberta por névoas, mas poderemos de outra forma, desvelar alguns de seus segredos… que constituem o epicentro de seu campo doutrinário. As névoas sobre o passado começaram a existir quando os “herdeiros” do legado histórico passaram a determinar o que deveria ser mantido na zona de memória, contudo as pegadas de outrora foram, por excelência, humanas. Humanas quando um ser humano caminha como tantos outros… em destino ao seu “destino”, conhecendo a si por meio de grandes desafios e embates, ao passo que também se reencontrou na rota dos seringais e pelas mãos de caboclos da região, conheceu a Ayahuasca. Uma vez iniciado à antiga tradição, um mundo se abriu defronte aos seus olhos, gerando um novo movimento em seu íntimo.

Este peregrino é José Gabriel da Costa e suas pegadas iniciaram-se na Bahia de Todos os Santos: em 10 de fevereiro de 1922 nasceu no povoado Coração de Maria, filho de Manuel Gabriel da Costa e Prima Feliciana da Costa. Todos os pesquisadores que intentam a investigação sobre sua história pessoal, se deparam com a dificuldade de escassas fontes de pesquisa, sendo todos levados ao trabalho de campo, caminhando por meio da tradição oral em busca de respostas: assim esta pesquisa se constitui, inúmeros depoimentos foram colhidos ao longo de dez anos, incluindo a investigação na denominada ‘Sede Histórica’ em Porto Velho, Rondônia, com a própria família de José Gabriel da Costa e muitos dos pioneiros, além de referências por outras vertentes da linha espiritual implantada pelos signos da União do Vegetal. Entretanto, nem todos depoentes se dispuseram a voltar ao passado, os poucos que estiveram abertos, compartilharam, por vezes, informações escassas e genéricas – quando esta regra é quebrada, outro silêncio comumente se apresenta, agora em relação aos seus nomes, preferindo os depoentes, permanecer no anonimato. Este fenômeno se repete em relação ao trabalho de outros pesquisadores, conforme pode ser comprovado em suas narrativas.

Só nos torna possível tecer alguma ideia do passado, reunindo o emaranhado de indícios dispersos numa sinuosa teia de informações, fazendo uso, quando possível, de referências apresentadas em pesquisas semelhantes, sobressaindo duas raras reportagens realizadas com o líder pioneiro em vida, uma do jornal “O Estado de São Paulo”, outra da revista “O Cruzeiro”. Confrontando informações entre diferentes relatos, alcançamos certa margem de segurança para tecer um caminho de narrativa, tal qual um novelo no labirinto. Desde o início da pesquisa, toda esta problemática se mostrou emblemática e complexa, muitas interrogações surgiram a respeito, em alguns momentos as dificuldades foram tamanhas que em nossa percepção quase chegamos à desistência do intento, lamentando pela perca de valiosos elos do passado, pois no ventre dos fatos históricos, germinou uma manifestação de fé consolidando a transposição do rito caboclo de comunhão da Ayahuasca às culturas urbanas atuais.

A respeito da historicidade de Raimundo Irineu Serra e Daniel Pereira de Mattos, muitas dificuldades existem na investigação… mas sobre José Gabriel da Costa, o silêncio é tácito. As trajetórias de Mestre Irineu e Mestre Daniel justificam em parte as lacunas históricas, uma por ser extremamente longeva, a outra célere, mas em ambos os casos nos deparamos com lacunas justamente a respeito de suas trajetórias humanas, remontando ao processo de escolha das reminiscências do passado, consciente ou subjetivo: eis o estudo ontológico por excelência – os modos de expressão doser em si. Todavia, o silêncio sobre o homem histórico que se tornou mestre fundador de uma vertente espiritual enraizada na comunhão da Ayahuasca, se tornou por de mais emblemático. O desafio estava lançado, sem saber ao menos se teríamos êxito no propósito. Com paciência e determinação, confrontando informações e elos de narrativa, chegamos, portanto, ao estado descritivo que exporemos nestas breves palavras: somente correlacionando a investigação biográfica de José Gabriel da Costa com o campo doutrinário de sua “missão”, é possível vislumbrar a oportunidade de algumas respostas e alguns lampejos de compreensão – para tanto, nossa pesquisa obrigatoriamente é direcionada ao estudo dos segredos por trás dos véus da doutrina.

No decorrer da narrativa, adotamos os seguintes parâmetros metodológicos: todas as informações relatadas sem citação de fontes bibliográficas são pertencentes aos arquivos da pesquisa de campo, quando possível citaremos outros estudos que corroboram com as perspectivas apresentadas. Nota-se que as informações da pesquisa de campo estão arquivas pelo Diário de Campo ou em depoimentos orais com gravação de áudio (…).

A análise do campo doutrinário da União do Vegetal encontrará nestas páginas um estudo sem precedentes na bibliografia existente, donde a colaboração dos depoentes confidenciais foi crucial à investigação, deste modo mantemos nossos compromissos de honra, assumidos na ocasião dos encontros históricos em Porto Velho e demais paragens desta seara: quanto a esta abordagem, nem mesmo por decisão judicial divulgaremos seus nomes, no máximo, o relatório de nossos encontros ou as gravações das entrevistas. Através do apoio destes colaboradores, recebemos a doação de documentos históricos importantes, que serão compartilhados neste trabalho, como gravações de histórias centrais do campo doutrinário, narrativas orais acerca da fundação da União do Vegetal e anais do acervo de uma documentação interna, além de esclarecimentos cruciais, que serviram à organização do rol de informações. No decorrer da narrativa apresentaremos as justificativas deste trabalho, em sentido social e cultural.

 

6.1 – ORIGENS DA BAHIA 

José Gabriel da Costa nasceu na fazenda “Pedra Nova”, no município “Coração de Maria” – próximo a Feira de Santana, Estado da Bahia. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda nos primórdios do século dezenove (XIX) iniciou o povoamento da região, que integrava a fazenda “Bento Simões”; o grande marco histórico ocorreu nesta época com a construção da capela “Santíssimo Coração de Maria”, por iniciativa dos pioneiros João Manoel da Mota, Nacriono Simões Ferreira e Antonio Fidelis de Cerqueira Daltro. Já em 1848 houve a construção da igreja matriz, por iniciativa de missionários jesuítas, fato que consolida o povoamento da região e sua elevação à categoria de “Freguesia do Santíssimo Coração de Maria” em 1853; somente em 1891 a “freguesia” é transformada em município e o “arraial” em “Vila do Santíssimo Coração de Maria” (Lei Provincial nº 489, de 06-06-1853). Outras mudanças ocorreram a partir do regime republicano, incluindo a extinção do município de “Coração de Maria” em 1943 e a anexação do território ao município de “Irará” (Decreto-Lei estadual nº 141, de 31-12-1943), sendo posteriormente elevado a município em 1944, com a simplificação do nome à “Coração de Maria” (Decreto-Lei estadual nº 12978, de 01-06-1944).

 

6.2 – A PARTIDA PARA SALVADOR 

Um dos maiores paradoxos de sua história diz respeito justamente a sua mudança para Salvador. De acordo com a crônica oficial da “doutrina”, isto ocorreu em 1942, aos vinte anos. Porém, tal testemunho não coincide com outras informações importantes, como sua partida à Amazônia em 1943, aos 21 anos de idade. Inúmeros relatos acerca de suas atividades em Salvador incluem uma ampla experiência, que não poderia ser vivida em apenas um ano, a exemplo dos serviços de comerciante, operador de bonde, militar, enfermeiro, estivador e a intensa adesão à “ciência espírita”, incluindo sua consagração como “Pai de Terreiro”: o mesmo “Pai de Santo” conhecido em outras manifestações culturais.

 

6.3 – A TRAVESSIA À AMAZÔNIA

 O pouco que se narra do passado sobre a partida do jovem Gabriel de Salvador rumo aos seringais, também permanece envolto por um discurso carente de coerência e conhecimento: pela retórica do “cânone oficial”, conta-se apenas que José Gabriel da Costa alistou-se como “soldado da borracha” devido ao esforço de guerra do Governo Vargas, atribuindo, inclusive, um tom patriótico ao acontecimento. Todavia… investigando a miúde a travessia do passado, nos deparamos com um fato cercado de mistério – para isso as recordações de nossas fontes confidenciais foram de extrema valia, pois, a partir delas pudemos confrontar a “crônica oficial” com outras fontes de investigação, inclusive de familiares, como o relato de um filho de Mestre Gabriel registrado pelo estudo de Sérgio Brissac: “Parece estar relacionada à capoeiragem a decisão do jovem José de viajar da Bahia para o Norte. De acordo com o relato de seu filho Carmiro da Costa, em 1943 José envolve-se num conflito” (BRISSAC, 1999: 62).

 

6.4 – CAMINHOS PELOS SERINGAIS

 O tempo entre a chegada do jovem Gabriel (já com 22 anos em setembro de 1943), seu encontro com a Ayahuasca será dezesseis anos após a chegada, pois somente em 1º de abril 1959 foi iniciado por Chico Lourenço, um caboclo dos seringais. Por ventura, este fato Mestre Gabriel registrou muito bem em sua jornada, logo, agora temos uma resposta que falta à história dos outros pioneiros; no caso de Mestre Irineu, a lacuna sobre seu encontro com a Ayahuasca paira em cerca de quatro anos (entre 1910 e 1914 – provavelmente 1912), já com Mestre Daniel, identificamos o ano de 1936, sem ainda saber o dia e o mês. Nestes dezesseis anos, o jovem Gabriel irá percorrer o mundo velho dos seringais, já carimbado e massacrado pelos barões da borracha, trabalhando também como lenhador, enfermeiro, comerciante e oleiro.

 

(…)

 

Um registro histórico se sobressai acima do abismo de desinformações, tal fato diz respeito à reportagem da revista “O Cruzeiro” na data de 14 de julho de 1971, um pouco menos de dois meses antes do falecimento de José Gabriel da Costa. A reportagem que se intitula: “Aioasca o LSD da Amazônia”, aborda vários temas, alguns de cunho espirituais e ritualísticos, outros de cunho histórico – ressaltamos que a revista “O Cruzeiro” era um dos maiores periódicos nacionais pelos idos das décadas de 60. Trataremos agora as questões históricas, transpondo do mesmo modo os recortes da reportagem que fazem menção às “Origens”: um relato inédito sobre os anos de cativeiro em seringais, nos quais o jovem Gabriel teria sido até mesmo “vendido” e permanecido cativo, sem condições de fuga ou esperança de libertação. Esta descrição é narrada pela reportagem, acrescentando a informação que durante o período de escravidão, José Gabriel da Costa “chegou à beira da loucura”, encontrando uma fuga somente quando viu a face da morte e por uma enfermidade foi abatido, sendo socorrido no Hospital de Porto Velho.

 


Aioasca o LSD da Amazônia

Revista O Cruzeiro -14/07/1971

 

AS ORIGENS

Foi nos seringais da Bolívia que José Gabriel da Costa, "soldado da borracha", baiano semi-analfabeto, tomou conhecimento da aioasca (oasca) , "a fonte dos mistérios, em que se fundamenta a seita".


Em 1944, José Gabriel da Costa foi "levado pelo destino" para a Amazônia, para trabalhar nos seringais. Vendido, foi parar num seringal boliviano, onde ficou isolado por vários anos. Na solidão da mata, chegou à beira da loucura. Diversas vezes tentou fugir, mas sem êxito. Uma ferida, provocada por mosquitos, foi a "mão do destino" para sua fuga. Ficou no hospital de Porto Velho. Por esta época Gabriel procurava a aioasca, sobre cujos méritos já ouvira falar no seringal. Depois de muitas aventuras na política e no comércio, com altos e baixos, resolveu voltar à "Bolívia", "de onde somente sairia com domínio dos mistérios da aioasca ". Nesse tempo, Gabriel já tinha alguns discípulos.

 

 

6.5 – INICIAÇÃO À AYAHUASCA

 Muitos foram os caminhos percorridos entre as lidas diárias e os trabalhos do Sultão das Matas, ressaltando o valor de uma sabedoria singular ao compreender que “os maior erros da pessoa tá na cabeça”… na mente que faz um neófito acreditar que algum ‘mau’ pode cair sobre si – desprezando em seu interior as potências universais de vida. Nos ritos para “desmanchar feitiços”, o Pai de Terreiro trabalhava com noções de psicologia social, capazes de promover um estado mental renovado, superando os temores de feitiços ou traumas de uma experiência árdua e causticante. O terreno dos seringais promovera seus “estados de terror e morte”, torturas físicas e mentais, a resistência brotou pelas mãos dos sábios que se ocultavam nas florestas sagradas do Caldeirão da Ayahuasca. Assim a cultura híbrida dos caboclos lentamente penetrou na jornada de Gabriel, seu terreiro em “Órion” vivenciou a experiência do sincretismo africano e indígena, ao incorporar a força dos tambores da Bahia de Todos os Santos, invocava a herança cultural da pajelança.

 

(…)

 

O próprio narrador também conta que ele mesmo entrou numa dificuldade muito grande, chegando a interpelar Chico Lourenço com agressividade, ao passo que foi detido por outro caboclo, auxiliar do “mestre de cerimônia”, identificado como “Mestre Marinheiro”. Neste momento José Gabriel intervém, chamando o filho para sua companhia, ocasião em que alguém pela primeira vez o proclama “rei” e “mestre”:“Papai é um rei (…) e um mestre feito por Deus”. A resposta de seu pai foi afirmativa em ambas as preposições. Toda esta narrativa se encontra num precioso relato contado por Jair Gabriel em “Reunião do Conselho da Recordação dos Ensinos de Mestre Gabriel, ocorrida no Núcleo Caupuri em Manaus, em 09 de Abril de 1994”, que contou com a presença de notáveis lideranças, confirmando as palavras ditas. A descrição é centrada no processo considerado de “Recriação da União do Vegetal”, por isso possui um longo discurso narrativo, percorrendo o período de iniciação em 1959 até a cerimônia de fundação em 22 de julho de 1961, no seringal “Sunta”, novamente nas selvas bolivianas. Exporemos toda a narrativa, que nos foi fornecida em 2009 por nossas fontes confidenciais em apoio ao propósito de trabalho da pesquisa: realizamos pessoalmente a transcrição da gravação em voz, atribuída ao “Mestre Jair” por explanação na referida “Reunião do Conselho da Recordação” em 09 de abril de 1994 – já em 2011 esta gravação tornou-se de domínio público, juntamente com outros documentos históricos, conforme constatamos na rede mundial de computadores, portanto, não violamos nenhum “direito de propriedade” ao compartilhar em nosso estudo literato.

 

5.8 – FUNDAÇÃO DA UNIÃO DO VEGETAL NO SERINGAL SUNTA: 1961

 O narrador, Jair Gabriel da Costa, continua dizendo que após este momento ainda continuaram muitas vezes a encontrar com Chico Lourenço, até que um dia… Mestre Gabriel trabalhando nas matas do seringal “Sunta”, na Bolívia, vivencia uma experiência que o leva à revelação final! O Mestre já andava procurando saber como ele iria “trazer a União do Vegetal pros mestre curioso que ainda existia por lá”. Num momento, quando parou para descansar encostado a uma árvore, viu um cipó crescer de modo extraordinário, desconhecido por todos: “Um pé de mariri aqui? Sendo todo dia… toda vez eu corto essa estrada… um pé de mariri?” – o cipó ainda subia… Com um metro e meio ele abria um galho: de um lado era mariri, do outro tingui – o “três quina”, uma espécie venenosa de cipós da família dos “timbós”. Vendo aquilo, ele compreendeu sua revelação: “Então tá demonstrando as duas coisa: a linha negra… e eu que tô trabalhando pela realidade. Vou fazer um Vegetal com esse mariri e vou declarar a União do Vegetal”.

  

(…)

 

Reunião do Conselho de Recordação dos Ensinos de Mestre Gabriel, ocorrida no Núcleo Caupuri em Manaus, em 09 de Abril de 1994. Com a presença dos Mestres: Monteiro, Pequenina, José Luiz, Florêncio, Nonato, Adamir, Francisco Herculano, Manuel Nogueira, Pernambuco, Jair, Roberto Souto, Roberto Evangelista.

Apoio técnico: mestre José Maria Evangelista e mestre Edson Lodi.

 

Recriação da União do Vegetal, 22 de Julho de 1961.

Acontecimento narrado pelo Mestre Jair Gabriel.

 

O Mestre Gabriel quando ele, é… bebeu o Vegetal pela primeira vez, foi dado pelo Mestre chamado Chico Lourenço. Uma vez ele se encontrou com Chico Lourenço num barracão do seringal chamado Guarapari. E o Chico Lourenço na época ele tava batendo um pandeiro e cantando toada, que ele gostava de cantar. E o Mestre Gabriel se aproximou, que uma pessoa tinha falado pra ele que ele era um mestre que dava o Vegetal. E ele chegou perante o mestre, que era o Chico Lourenço, e perguntou: “Você dá o mariri?”. Ele falou: “Dou sim!”. Mestre Gabriel: “Eu tô querendo beber”. Aí ele falou: “Pronto! Na hora que você quiser”. Então naquela época no seringal, 1° de Abril era feriado. Que era o dia da mentira, o pessoal seringueiro, brincava um com o outro sobre mentira. Ele disse: “Chico então faz o seguinte, a semana que vem é um feriado, que é 1° de Abril, se você quiser ir dar o Vegetal você vai dar lá na minha colocação”. E o Chico Lourenço: “Não… eu vou!”. E o Chico Lourenço foi para o seringal Barro Alto, nessa época ele morava lá, e nós fomos para colocação chamada Capinzal. Quando foi dia 1° de Abril, nós ficamos aguardando o Chico Lourenço, que era um dia que ninguém trabalhava e a hora que ele tinha marcado pra chegar… para dar o vegetal, já tava tarde. E aí tinha uma pessoa que se chamava Chico Paiva. O Chico Paiva disse: “Ah Gabriel! O Chico Lourenço não vem não, rapaz! Hoje é 1° de Abril, ele deve estar mentindo por aí!”. Mestre Gabriel falou: “Não, mas ele ficou de vir!”. Quando já foi já pra umas sete horas da noite, o Chico Lourenço chegou com o mariri num saco que chamou “saco de seringa”. Aí foi aquela alegria né, o Chico Lourenço trouxe o vegetal. Aí ele tomou banho, jantou, aí quando foi oito horas… que os ‘mestre da curiosidade’ naquele tempo já oito horas eles já atendiam nesse horário. Aí ele: “Vamos beber o Vegetal”. Já usava também uma mesa na frente dele, a mesa era até de sacupemba, feita de sacupemba. Aí o Mestre Gabriel… ele chamou, o Chico Lourenço chamou pra beber o Vegetal…

(…)

Aí o Mestre Gabriel, daí pra frente continuou. Aí nóis bebemos o Vegetal várias vezes com o Chico Lourenço nesse período né, aí nóis fiquemo bebendo Vegetal desse período aí até sessenta e um. Então nóis bebemos Vegetal aí no Guarapari uma porção de tempo, aí foi quando nóis mudemo pro seringal Sunta, pra morar na Sunta. Fomos morar no barracão. Chegando lá, fomos trabalhar em seringa. E o Mestre Gabriel, aí ele já contando, ele procurando como ele devia trazer a União do Vegetal pros ‘mestre curioso’

(…)

Mas… preparou o Vegetal, aí quando foi oito horas da noite ele distribuiu o Vegetal. Ele primeiro bebeu! Aí esperou quinze minutos, com quinze minuto a burracheira chegou, aí distribuiu pra todo mundo que tava bebendo Vegetal, que tinha bastante gente. Não sei assim a quantidade. Aí continuou a Sessão, aí foi quando o Mestre Gabriel fez a primeira ‘chamada’ da Sagrada União, não é a chamada do mariri com a chacrona não… a ‘chamada’ A Sagrada União… foi feita nesse dia e a chamada de Todo o Cipó que existe na Hoasca. E depois do dia 06 de Janeiro… aí vem 1º de Novembro.

 


 

6.9 – AFIRMAÇÃO DE SUPREMACIA DA UNIÃO DO VEGETAL 

Em termos históricos, aqui está contada a travessia de fundação da União do Vegetal por um baiano nascido em Coração de Maria, José Gabriel da Costa. Os passos seguintes ao ano de 1961 serão marcados por dois períodos distintos: o primeiro caracteriza-se ainda na “Fase dos Seringais”, de 1961 até 1964; o segundo caracteriza-se pela “Fase Urbana”, indo de 1965 até 1971 (…). Ao analisarmos a formação doutrinária da União do Vegetal, identificamos na passagem citada da revelação por meio de um cipó que bifurcava sua natureza entre o maligno e o benigno, o discurso de rompimento com o passado e a afirmação da “supremacia” de sua missão, por este viés, tudo àquilo que estivesse fora de sua linhagem, percorreria o caminho negativo, enquanto sua “maestria” é proclamada enquanto superior.

 

(…)

 

Primeiramente observemos o relato de Jair Gabriel da Costa gravado em Sessão da União do Vegetal (o arquivo de áudio deste depoimento confere com a narrativa do mesmo depoente já citado, da mesma forma encontra-se disposto em nosso espaço virtual para análise crítica e investigação científica) – com a palavra, “mestre Jair”:

 

Dia de Reis, 06 de Janeiro de 1962.

Acontecimento narrado pelo mestre Jair Gabriel.

 

Essa data da União do Vegetal do dia 06 de janeiro, o acontecimento foi na cidade de Vila Plácida. Quando o mestre Gabriel já tinha criado a União do Vegetal, nós morava no Seringal Sunta e ele já tinha feito algumas viagem pra Vila Plácida, com os mestre que existia naquela época lá. E quando ele viajava ficava a Mestre Pequenina e o Mestre Pernambuco distribuindo Vegetal na Sunta. Quando era um, era outro. Quando chegou dia 06 de Janeiro ele falou com os mestre… antes do dia seis ele falou pros mestre que existia naquela época, que ele queria fazer uma sessão pra saber quem era o mestre superior. E quando foi dia 06 de Janeiro de 62, o mestre Gabriel foi até a vila Plácida e lá se reuniu num lugar que era uma olaria, e nesse lugar ele reuniu com doze mestre…

 

 

(…)

 

Esta história é amplamente narrada pelas linhagens da União do Vegetal, configura-se como fato inicial de afirmação de supremacia do “Grande Mestre”…

 

 

(…)

 

Um fato notório, que além de confirmar a União do Vegetal no ‘Astral Superior’, confirma também seu mestre fundador como rei… um fato como este até hoje repercute de modo intenso no seio da tradição, o que diríamos então da ressonância naquela época… todo o cenário de constituição de uma missão sagrada estava formado, os próximos passos seriam em direção à esfera urbana. Antes, porém, acompanhemos o relato do caso por Jair Gabriel da Costa:

 

Confirmação da União do Vegetal no Astral Superior no dia 1° de Novembro de 1964, contada por mestre Jair Gabriel da Costa em reunião do “Conselho de Recordação dos Ensinos de Mestre Gabriel”, realizada no núcleo Caupuri em Manaus.

 

Dia 1º de Novembro foi uma data assim… que o Mestre Gabriel queria registrar a União do Vegetal no Astral Superior. E aí ele convidou as pessoas na época… que se encontrava, que ele queria fazer um Vegetal, mas esse Vegetal ele queria fazer só com água de vegetal (…), confirmar é… confirmar… confirmar… é. Então aí… ele reuniu as pessoas pra fazer esse Vegetal dia 1º de Novembro. E quando foi essa data, ele reuniu as pessoas, mandou tirar a água de taboca, do cipó melancia, cipó cruz, sumaúma, e de outros que num tô lembrado né…

 

 

6.10 – INÍCIO DA FASE URBANA: 1965 

O ano de 1965 foi de crucial importância para a formação inicial de uma comunidade, agregando outras pessoas de expressões além da Umbanda. A partir deste momento Mestre Gabriel teria mais seis anos em vida para consolidar sua missão, uma vez que o mesmo veio a falecer em 1971. Outras rupturas se manifestarão em sua vida, além daquelas de cunho estritamente religiosos, mudará as atividades de trabalho e não mais exercerá atividades políticas, desta vez ao invés de trabalhar como enfermeiro ou comércio de bebidas, se dedicará a uma olaria de sua própria posse, fazendo tijolos com as suas próprias mãos. O ano de sessenta e cinco se destaca fundamentalmente pelo início de institucionalização do rito, criando as bases da organização social que viria a ser uma nova religião brasileira, nesta época identificada simplesmente como União do Vegetal.

 

6.11 – INSTALAÇÃO EM PORTO VELHO 

Em 29 de julho de 1967 ocorreu a primeiro marco histórico de crescimento da União do Vegetal, a fundação do primeiro núcleo na cidade de Manaus, Estado do Amazonas – considerando que nesta época o espaço de Porto Velho era identificado como ‘Sede Geral’ e não um núcleo, atualmente é a ‘Sede Histórica’ e também o “Núcleo Mestre Gabriel”. Em Manaus o espaço será identificado como “Núcleo Caupuri”, nome dado a um gênero de cipós – componente da Ayahuasca – que desenvolvem grandes “nós” em seu talo. De acordo com nossas pesquisas, o “mestre Cruzeiro” foi o responsável em implantar a União do Vegetal em Manaus, tal feito é celebrado por Mestre Gabriel como o marco inicial da expansão universal da missão: a partir de Manaus a organização iria crescer ao ponto de conquistar o domínio do mundo. Exatamente desta forma… pelo sonho do peregrino, o domínio do mundo viria pela compreensão das pessoas e pelo domínio da paz, mas num dia… todos os povos do mundo estariam dominados pela ordem da União do Vegetal, falando uma só língua e manifestando uma única fé… primeiramente a UDV iria absolver as religiões ayahuasqueiras, inclusive o Daime e a Barquinha, para depois absorver todas as demais religiões da humanidade.

 

6.12 – A PRISÃO DE MESTRE GABRIEL 

O ano de 1967 foi marcado pelo fato de maior vulto social na história da União do Vegetal: Mestre Gabriel foi preso em Porto Velho. Esta passagem, por certo, é nebulosa em todos os sentidos. Perseguição já havia à comunhão da Ayahuasca, Mestre Irineu e Frei Daniel sofreram atentados, mas nenhum foi encarcerado. O fato cabal deste episódio fatídico, só pode ter ligação direta com atividades relacionadas à União do Vegetal e todo o contexto social de iniciação dos novos discípulos e expansão da doutrina. Nenhum indício de desordem social promovido pessoalmente por José Gabriel da Costa é identificado, tampouco suas atividades ligadas à capoeira ou Umbanda – pois se assim fosse, tal fato já teria ocorrido anos antes, quando ele se destacava de forma notória como “Pai de Santo”, além de que pelos idos dos anos sessenta, mesmo com os ditames do regime militar, as tradições religiosas afrodescendentes já gozavam de certa tolerância legal. O fato cabal deste episódio fatídico só pode ter ligação direta com as atividades relacionadas à União do Vegetal e todo o contexto social de iniciação dos novos discípulos e expansão da doutrina.

 

(…)

 

Os casos de “loucura” mencionados anteriormente incitaram a ação policial, disto não há dúvida: inúmeros relatos dos remanescentes do período apontam para este rumo. Ainda assim, apresentamos um documento histórico que apresenta, entre outras informações, o relato exato destes casos citados, se trata da primeira reportagem da “grande mídia” acerca da Ayahuasca no Brasil. Este registro peculiar teve voz e lugar no jornal “O Estado de São Paulo”, reportagem publicada no dia 29 de agosto de 1968 sob a autoria do jornalista Alberto Prado, incluindo a pesquisa(in loco), o texto e as fotos da reportagem, intitulada: “Na Selva, um místico vende o sonho”.

  

(…)

 

O artigo do “Alto Madeira” cita que após ser chamado pelo Chefe de Polícia da capital, Mestre Gabriel compareceu: a narrativa sobre seu depoimento se encerra assim, do modo como começou, sem apresentar nenhuma outra informação. Em seguida, relata que o Chefe de Polícia teria liberado o mestre fundador da União do Vegetal por não ter “encontrando nenhuma infração legal”, fato que é descrito como uma “cobertura” dada pelo Delegado à organização, quando este teria pronunciado as seguintes palavras: “Não posso proibir as Sessões de vocês, mas também não posso dar licença”. A priori tudo estaria resolvido com Mestre Gabriel, porém, a narrativa prossegue com outra abordagem policial, ocasião esta em que o “Senhor Delegado de Polícia da Capital” se ausentou da localidade, e então o “Delegado do Trânsito, inocentemente, fez um ataque na residencia do Mestre, que no momento doutrinava religiosamente 38 discípulos, dos 198 que vem lhe acompanhando”, conforme é declarado no artigo do “Alto Madeira” (…).

  

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "ALTO MADEIRA", EM EDIÇÃO DE 6 DE OUTUBRO DE 1967.

Quando foi preso em Jarú, José Rodrigues Sobrinho, por estar preparando o Vegetal, que chamam pelo nome de HOASCA, o Mestre da UNIÃO DO VEGETAL, JOSÉ GABRIEL DA COSTA, foi chamado pelo Senhor Delegado de Polícia da Capital, para fornecer alguma explicação sobre aquele líquido, Chá Misterioso. O Senhor Delegado, não encontrando nenhuma infração legal, deu cobertura à UNIÃO com as seguintes palavras: "Não posso proibir as Sessões de vocês, mas também não posso dar licença."

(…)

Dizem os discípulos ao Mestre: "Queremos compreensão destas palavras". Responde o Mestre: "Fiquem com a memória presa, estudando, até chegar os ensinos de Salomão, na próxima Sessão do Grau". S.I.C.P.M.R. Lembrem-se, o símbolo da UNIÃO é LUZ, PAZ e AMOR.

 

 

Um fato arbitrário ocorrido à sombra da lei: invasão domiciliar às 23 horas sem mandado judicial. Porém, num “Estado de Exceção”, a quem iriam recorrer diante o caos?

 

(…)

Outro fator que demonstrou a confiança depositada pelo grupo no investigador, diz respeito ao grande número de relatos sobre as experiências suprassensíveis provocadas pela ingestão da Ayahuasca, sobressaindo à narrativa de visões encantadoras do espaço físico das Sessões e dos objetos presentes, como as “paredes de ouro” e copos “cravejados de brilhantes”… viagens por Paris e diálogo com o renomado general Charles de Gaulle, por um garimpeiro do rio Candeias… incluindo as próprias palavras de Mestre Gabriel sobre seu encontro com o rei Salomão desde as primeiras experiências com o caboclo Chico Lourenço, até a explicação doutrinária sobre as origens das plantas e da bebida que é narrada pela “História da Hoasca”. Desta forma, identificamos que Mestre Gabriel em pessoa deu o consentimento para que esta narrativa se tornasse pública, compartilhando-a com um veículo da grande mídia nacional, fato que quebra inúmeros tabus implantados na posteridade, em que os “mestres” da União do Vegetal mantém a “História da Hoasca” trancafiada a um universo de dogmas. Além de compartilhar as informações da narrativa, a reportagem indica que Mestre Gabriel prestou esclarecimentos e se portou de modo afável aos questionamentos do investigador: a linha central da “História da Hoasca” está descrita na reportagem, com citações diretas das falas do líder:

 

6.13 – REGISTRO PÚBLICO DA UDV 

O caminho estava traçado novamente pelo viés do confronto e do atrito, as autoridades públicas desconheciam o processo inovador do sincretismo religioso e, pela primeira vez, emergia das matas uma expressão de fé fundamentada na comunhão de uma bebida sacramental. Enquanto a tradição dos caboclos permanecia isolada num mundo onde as fronteiras ainda eram relativamente intransponíveis, a comunhão da Ayahuasca não era um problema… agora ela começava a se sobressair nos centros urbanos, por isso causava calafrios e desconfiança: a perseguição já estava traçada, em Porto Velho os casos de conflito aguçaram a ira e o furor dos detratores, o único caminho possível para a permanência do ato de fé era a busca pela legitimidade social.

A respeito dos meios sociais de consolidação da União do Vegetal, as informações prestadas por Alberto Prado são de grande valia, sobretudo a respeito da “eminência parda” no comando do processo de registro público e administração da nascente entidade. De fato identificamos, através de outras fontes, a existência de um mentor jurídico que acompanhou e orientou Mestre Gabriel e a comunidade espiritual nos meandros da ordem pública, mesmo sem realizar a comunhão do Vegetal ou se interessar pelos “mistérios” da missão, seu nome é Jerônimo Santana, um renomado advogado nascido no município de Jataí, Estado de Goiás. Por certo seus serviços foram contratados de modo profissional, mas conforme a reportagem elucida, esta “eminência parda” parecia valer de outros fins além dos profissionais ou espirituais, o “Dr. Santana” era também influente nos meios políticos e apresentava uma incipiente carreira política – posteriormente chegou a ser Deputado Federal pelo recém-criado Estado de Rondônia em 1985 e Governador em 1986.

 

(…)

 

O fato central que se sobressai à narrativa, é o esclarecimento do início do processo de regulamentação da União do Vegetal em busca de legitimidade pública e institucional. Conforme Alberto Prado citou em sua reportagem, havia um forte questionamento público sobre a legitimidade de existência do culto e da organização em si, em muitos momentos ele aborda a possibilidade de “extinção” da União do Vegetal, logo, a par de todos estes elos de narrativa, podemos identificar o contexto histórico que permeava a atuação do rito de comunhão da Ayahuasca em Porto Velho: havia um conflito deflagrado na sociedade, por onde as autoridades estatais e a própria “opinião pública” travavam uma guerra contra a União do Vegetal. Todos os esforços perpetrados por Mestre Gabriel e o Dr. Santana nos anos seguintes, não foram suficientes para conter o avanço da força detratora, já com a saúde debilitada, o mestre fundador verá perante seus próprios olhos… o Chefe de Polícia de Porto Velho mandar fechar a União do Vegetal no dia 22 de fevereiro de 1970, doze dias após seu penúltimo aniversário em vida.

 

(…)

 

Desta vez o relato vem pelas próprias palavras de Mestre Gabriel, hoje conhecidas através de uma gravação em áudio. Num diálogo aparentemente ocorrido dentro de uma Sessão em Porto Velho, o mestre fundador se dirige a um discípulo chamado Geraldo, vindo do Núcleo Caupuri, esclarecendo que ainda não havia cumprido sua promessa de realizar uma visita à Manaus, porque aguardava a liberação dos despachos de documentos em Brasília: “só quero ir à Manaus quando eu levar o registro da Associação Beneficente da União do Vegetal, quando chegar este documento, que tá pra Brasília, então é quando eu irei à Manaus juntamente com o presidente da sociedade”, diz o mestre. (…) Com a palavra, Mestre Gabriel em pessoa:

 

E assim eu desejo ao Geraldo os meus sinceros agradecimento e sobre a minha viagem à Manaus, que eu também fui chamado à atenção […], prometendo, prometendo… e não fui. E eu digo: e ainda continuo prometendo, ainda continuo prometendo… que eu só quero ir à Manaus… eu posso ir antes, mas só quero ir à Manaus quando eu levar o registro da Associação Beneficente da União do Vegetal…

 

6.14 – A DESPEDIDA SOLITÁRIA DE MESTRE GABRIEL

 Os últimos dias de Mestre Gabriel não foram fáceis, perseguido pela polícia e acometido por uma grave doença, o peregrino se despediu deste mundo aos 49 anos de idade, ainda na formação de sua missão. Desde o início da “Fase Urbana” em 1º de janeiro de 1965, até seu falecimento em 24 de setembro de 1971, foram apenas seis anos à frente das Sessões, considerando a data de fundação em 22 de julho de 1961, foram dez anos… e ainda a data de sua primeira experiência com a Ayahuasca em 1º de abril de 1959, apenas doze anos se completaram. Selando os passos do final desta jornada, o ano de 1970 foi marcado por dois acontecimentos importantes…

 

(…)

 

Estas informações são públicas e dizem respeito diretamente aos passos finais do líder pioneiro da União do Vegetal, todas as comunidades vinculadas ao Vegetal no Norte do país compartilham destes relatos, por mais que elas sejam veladas no “Sul”. O fator central desta análise recai sobre a velha questão posta em debate desde o início da narrativa, o reconhecimento da humanidade de cada um dos mestres fundadores das ‘Linhas Raízes’, sendo que neste caso em específico, encontramos problemáticas deveras vezes maiores do que em relação às outras duas tradições. De modo tácito e pragmático, a doença que afligia Mestre Gabriel jamais foi revelada em público…

 

(…)

 

O fato central repousa na mais absoluta ignorância, ou seja, falta de conhecimento. O último ano inteiro da vida de Mestre Gabriel foi marcado por sua luta em recuperar a saúde, buscando tratamento nos meios tradicionais da ciência ocidental, fazendo uso de medicamentos alopáticos e se submetendo a internações num hospital público, como foi o caso da internação que durou cerca de cinco meses em Fortaleza, capital do Ceará.

(…)

A seguir transcrevemos o relato do mestre Monteiro, conforme foi narrado em “Reunião do Conselho da Recordação dos Ensinos do Mestre Gabriel” no Núcleo Caupuri (o arquivo com a gravação do áudio desta preleção está disposto em nosso espaço virtual): 

 


Ressurreição de Mestre Gabriel, em 27 de Março de 1971.

Acontecimento narrado pelo mestre Monteiro em “Reunião do Conselho da Recordação dos Ensinos de Mestre Gabriel”, realizada no Núcleo Caupuri em Manaus.

 

A data de 27 de março que se comemora hoje na União do Vegetal, é uma data comemorativa única e exclusivamente à ressurreição do Mestre Gabriel. Quando ele precisou viajar ao Ceará pra recuperação de sua saúde física… ele… na época eu fiquei, naquela época… como mestre naquela época, Mestre Representante do Mestre Geral. E ele fez a mim pessoalmente duas recomendações…

 

(…)

 

A narrativa sobre os meses finais de Mestre Gabriel encontra lacunas espantosas, fator que novamente nos demonstra os indícios de uma doença grave e em estado terminal (…). A saúde do peregrino cada vez mais apresentava os sinais de fraqueza, o mês de agosto transcorreu sem nenhum fato notório registrado (…) num momento delicado, tomou uma das decisões mais difíceis: gravar o “Rosário de Chamadas” a fim de preservar a memória de seus ensinos (… )se o próprio Mestre Gabriel decide abrir uma exceção à regra, é sinal mais do que evidente de que ele se encontrava muito debilitado e ciente dos limites de sua saúde.

 

6.15 – POR TRÁS DOS VÉUS DA DOUTRINA

Um passo além necessita ser dado nesta jornada, o sistema religioso da União do Vegetal só pode ser compreendido após adentrarmos ao “misterioso” mundo dos segredos velados pela doutrina. O quadro de significados religiosos implantado por Mestre Gabriel possui uma gama enorme de símbolos ocultos e instruções veladas, trazendo em si a mensagem de um grande segredo. Os silêncios sobre a narrativa da história de Mestre Gabriel podem ser compreendidos após a compreensão dos códigos de valores secretos escondidos pela doutrina, por isso narraremos esta passagem.

 

(…)

 

A narrativa de criação do mundo é acompanhada pela narrativa de origem da Ayahuasca: a “História da Criação” e a “História da Hoasca”, respectivamente – a “História do Nascimento de Jesus” ainda acompanha uma das “grandes revelações” da “História da Criação”, por isso analisá-la também. Estas três histórias correspondem ao epicentro do campo doutrinário da União do Vegetal, apresentando um sentido absoluto para a existência, em que os espíritos viventes encarnam na Terra em busca da “purificação”.

 

(…)

 

Primeiramente, Mestre Gabriel criou uma doutrina fundamentada na palavra, considerando que “tudo vem pela palavra” e que através dela o homem pode ser rei ou escravo, cabendo a cada um conhecer “os mistérios das palavras”, sejam eles “positivos ou negativos” (…)o ápice dos “mistérios da palavra” na liturgia são os “Mistérios do Vegetal”, em que significados ocultos são atribuídos aos seguintes nomes: CHACRONA, MARIRI, HOASCA E TIUACO (leitura das iniciais em ordem vertical, com os símbolos “ocultos” na horizontal):

 

(…)

 

As “Chamadas de Abertura da Sessão” compreendem um repertório de cinco cânticos: Sombreia, Istrondou, Caiano, Minguarana e União – eis os nomes delas, cujas iniciais recebem um símbolo sobrenatural oculto: SIMCU…

 

(…)

 

Observemos, portanto, o conjunto de preceitos contidos nas “Chamadas de Abertura” a fim de clarearmos a compreensão da dimensão religiosa e histórica da doutrina:

  

Sombreia

Sombreia, sombreia

Se eu peço ‘luiz’, que venha nos sombrear

(…)

 

Istrondou

Istrondou na barra

Tiuaco é Mariri

Istrondou na barra

Tiuaco é Marechal

(…)

 

Minguarana

Ô Minguarana Tu

Trarei os teus encantos

E Trarei ei ei ei

Trarei os teus encantos

(…)

 

Caiano

Caiano, Mestre Caiano

É o primeiro hoasqueiro hum, hum, hum

Eu chamo Caiano

Eu chamo burracheira

(…)

 

União

É o Mariri com a Chacrona

Em união é quem nos conduz

É o Mariri com a Chacrona

Em união é quem nos conduz

(…)

 

A transcrição das “Chamadas” ocorreu a partir de gravações feitas dentro de rituais em comunidades de Rondônia por discípulos que conviveram e aprenderam diretamente com o mestre fundador, logo, são registros históricos vindos diretamente da região de origem da União do Vegetal.

 

(…)

 

Avançando ainda mais no caminho de investigação, apresentamos um relato inédito sobre uma ocasião em que Mestre Irineu mandou um litro do Daime feito por ele próprio para Mestre Gabriel, quem narra à história é um depoente que estava presente na ocasião do fato.

 

(…)

 

A primeira “Chamada de Fechamento” é realizada as vinte e três horas e trinta minutos (23h30min) com a “Despedida do Caiano”, segue o intervalo até meia noite, primeiro com as “Chamadas de Fechamento”, depois com o mestre dirigente perguntando a todos: “Como foi a burracheira?” – “Foi boa”, respondem os discípulos em uníssimo som, com olhos abertos e pés no chão.

  

Despedida do Caiano

Caiano, Mestre Caiano

Foi o primeiro hoasqueiro

Vai levando as miração

 (…)

 

Ponto Final do Dia

Já vai dar meia noite

É o ponto final do dia

(…)

 

Despedida da Minguarana

Ô Minguarana tu

Levarei os teus encantos

Levarei ei ei ei os teus encantos

(…)

 

6.16 – HISTÓRIA DA HOASCA

 A “História da Hoasca” é o mito de origem da bebida contado por Mestre Gabriel. Ele expressa sua visão de mundo com base numa narrativa em que ele próprio ocupa um lugar central na história através de sucessivas encarnações, desde um mítico reinado anterior ao “dilúvio universal”, quando era um rei chamado “Inca” (…):

  

HISTÓRIA DA HOASCA



Bebendo o chá… e porque bebe e vê tantas coisas maravilhosa, fica meio confuso…

Existia um rei denominado INCA. Este rei tinha uma conselheira, uma mulher que se chamava HOASCA. Esta mulher misteriosa perante o rei, mulher que adivinhava… que sabia tudo quanto tinha pra se passar, então orientava o rei [em visões, impressões] de como devia fazer. HOASCA, a mulher misteriosa… o rei não podia saber por que o mistério daquela conselheira, até que um dia HOASCA morreu, o rei ficou desorientado sem a sua conselheira, mas não pudeno fazer nada, a não ser sepultá-la…

 

 

A história transcrita nestas páginas foi narrada diretamente por Mestre Gabriel (o arquivo do áudio encontra-se disposto em nosso espaço virtual), nosso desafio maior foi transpor numa linguagem escrita o sentido das palavras entoadas em proza e cânticos, por isso recomendamos uma nova leitura acompanhada pela escuta da gravação, assim os amigos leitores poderão se aproximar de modo mais eficaz de nosso objeto de estudo.

 

6.17 – HISTÓRIA DA CRIAÇÃO

 A “História da Criação” é uma narrativa restrita ao “Corpo Instrutivo” e ainda assim costuma ser retida por um tempo desde a iniciação dos discípulos, até que estes tenham “grau de memória” para receber os ensinos, por estes meios já identificamos que de fato se trata de algo bem importante e vigiado. Não obstante, toda a doutrina de Mestre Gabriel é alicerçada pela cosmovisão da “História da Criação”, inclusive a própria “História da Hoasca” só pode ser compreendida plenamente a partir da correlação destes ensinos. Antes de qualquer narrativa ou análise por nossa parte, apresentamos a referida história ao conhecimento dos amigos leitores, tal qual foi narrada e aprovada em Sessão do “Quadro de Mestre Antigo”, realizada dia 17 de abril de 1987, no “Núcleo Mestre Rubens” em Jarú, Rondônia – o “Quadro de Mestre Antigo” é o mesmo “Conselho da Recordação dos Ensinos do Mestre Gabriel” (o arquivo deste áudio encontra-se disposto em nosso espaço virtual).

 

História da Criação aprovada pelo ‘Quadro de Mestre Antigo’ em Sessão realizada em 17 de abril de 1987 no núcleo Mestre Rubens, em Jarú- Rondônia.


No princípio de tudo só existia o universo e três “luiz” formando a Trindade: Pivô da NaturezaJean Bangulê e Luiz Bela. Luiz Bela tinha o nome de Luiz Bela porque entre as outras ‘luiz’, ela se destacava a mais bela. Luiz Bela recebeu a autorização das outras ‘luiz’ pra criar anjos: de um até nove anjos por minuto. Ela tinha um ramalhete e colocava aquele ramalhete em uma água…

 

 

(…)

 

Este é o mito fundante da doutrina de José Gabriel da Costa, o epicentro dos “mistérios” da União do Vegetal, que pela primeira vez ocupa espaço nas páginas de um livro de história. Este procedimento se fez necessário devido ao caráter que ele apresenta, pois em sua mensagem uma doutrina racista é implantada à sombra da lei e de qualquer princípio humano. Indo além do simples mito de superioridade da União do Vegetal e primazia de seu mestre fundador, a doutrina apregoa claramente uma suposta inferioridade por parte das pessoas de pele escura, eis o grande “segredo” dos “mistérios”. Uma aberração posta à contemporaneidade, que abomina através da Declaração Universal dos Direitos Humanos, qualquer forma de racismo e segregação étnica, portanto um crime classificado como hediondo pela Carta Magna da República Federativa do Brasil.

 

(…)

 

Uma única exceção se apresentou no rol de omissões e sentenças, esta veio pela voz de um médico psiquiatra, seu nome é Luiz Carlos Pimentel Alves e seu trabalho teve o objetivo de publicar a “A Criação do Universo pela Religião da Hoasca”, um livro de vertente religiosa, não uma pesquisa histórica. O trabalho do médico psiquiatra se incumbiu de estabelecer um paralelo entre a “Criação Segundo a Bíblia” e a “História da Criação contada por Jean Bangulê” (…):

 

NO PRINCÍPIO DE TUDO EXISTIA SOMENTE O UNIVERSO E TRÊS LUZ, FORMANDO A TRINDADE.

LUZ PIVÔ DA NATUREZA, LUZ JEAN BANGULÊ E LUZ BELA. LUZ BELA POR SE DESTACAR DE SER A LUZ MAIS BELA PELA SUA CLARIDADE E BELEZA.

LUZ BELA RECEBEU A AUTORIZAÇÃO DAS OUTRAS DUAS LUZ PARA CRIAR ANJOS, DE UM ATÉ NOVE ANJOS POR MINUTO. LUZ BELA COM UM RAMALHETE, QUE JÁ EXISTIA, COLOCAVA NA ÁGUA…

 

 

(…)

 

 

Nossa pesquisa levantou duas fontes de narrativa sobre a “História da Criação” pela União do Vegetal, as duas narrativas apresentam a explicação de que um crime fez surgir a primeira pessoa de “cor negra” ou “cor preta”: Caim, visto como um assassino invejoso e enciumado, seus filhos seriam os “caboclos bravos das florestas” (…). Esta doutrina aplica-se na perspectiva de “purificação” da humanidade pelo branqueamento da epiderme (…).Tal preceito aplicado às questões étnico-raciais é classificado como EUGENIA: uma forma de pensamento criminoso que produziu barbáries na história humana, de modo mais recente teve sua aplicação durante o regime nazista de Adolf Hitler a partir das “Leis de Nuremberg” (…). O absurdo de um pensamento como este se manifestar no Brasil representa uma negação sobre toda a história cultural de miscigenação, sincretismo e hibridismo.

 

6.18 – A IDENTIDADE DE JEAN BANGULÊ

 Em última análise da “História da Criação”, resta apenas identificar no plano simbólico quais manifestações as “luiz” da “Divindade” poderiam ter realizado na Terra. Primeiro ressalta-se que Jean Bangulê se tornou o “Autor das Trevas e do Conselho” por ter pedido ao Pivô da Natureza para que fosse criado um lugar em que os “anjos” criados pela rebeldia de Lúcifer pudessem se purificar. O próprio “Autor das Trevas” se manifestou na forma do primeiro homem, Adão…

 

(…)

 

Observe esta mesma mensagem contida nos segredos das seguintes “Chamadas” de “graus instrutivos”: Criação Divina – Mestre Caiano é identificado como o Sol, o Pai Celestial; Pai da Geração – Mestre Caiano é o Pai da Recordação que dará Luz, Paz e Amor a todas as nações; A Luiz Primeira – Mestre Geral Gabriel é o “puder universal”, limpo e sem véu (branco) e ainda é quem possui o “puder na mão em união com Salomão”; A Coroa Universal – Mestre Gabriel é a Istrela Guia (o Sol), na Terra em “união” com Salomão, o Rei da Ciência; Água da Vida – Mestre Gabriel é consagrado como o salvador: “Oh! Mestre Poderoso, Forte Eterno Salvador, Gabriel Caminho Claro, Recordando lá na Cruz, Mestre, Divino Mestre, És o Puder Divinal”: 

 

Criação Divina

Quando Deus fez o mundo

Ninguém sabe, ninguém viu

Quando Deus fez o mundo

Ninguém sabe, ninguém viu

(…)

 

Pai da Geração

Quando um Sol Adão

De si é vá cumprir a Missão

Quando um Sol Adão

De si é vá cumprir a Missão

(…)

 

A Luiz Primeira

O Sol Raiou

Ao Raiar Clariou

O Sol Raiou

Ao Raiar Clariou

(…)

 

A Coroa Universal

Quando o anjo anunciou

O poder da salvação

 

Ló vai todos por Um

Com o poder na mão

(…)

 

Água da Vida

Ô Água da Vida

Que o mestre tem pra nos dar

Ô Água da Vida

Que o mestre tem pra nos dar

(…)

 

 

6.19 – HISTÓRIA DO NASCIMENTO DE “JESUIS”

 No imaginário religioso da União do Vegetal, o mito correlaciona o nascimento de “Jesuis” com o nascimento de Adão, fazendo a ligação direta entre ambos e Jean Bangulê (…). A “História do Nascimento de Jesuis” é reservada aos “graus instrutivos”…

  

NASCIMENTO DE JESUIS


MARIA RECEBEU O AVISO DO ANJO GABRIEL QUE ELA IRIA SER MÃE DE JESUS.

DAQUELE MOMENTO ELA COMEÇOU A APRESENTAR UMA BARRIGA GESTANTE. E UM DIA À MEIA NOITE ELA SE ENCONTRAVA AO RELENTO NO MEIO DAS FLÔRES, E UMA DAQUELAS FLÔRES LHE CHAMOU A ATENÇÃO…


 

(…)

 

 

Esta narrativa explica, portanto, o quadro simbólico da missão suprema de Gabriel enquanto membro da “Trindade” e “salvador da humanidade”, daí o fundamento de missão da União do Vegetal em dominar o mundo (…).Vejamos as próprias palavras de Mestre Gabriel sobre o tema, cuja gravação se realizou durante uma Sessão do Vegetal (…):

 

“Umas palavras pra servir de orientação em Manaus, na Sociedade Beneficente que eu venho (…) era Deus o que o homem podia ser Deus. Essa palavra que o homem pode ser Deus, se pode dizer ela quando se pode explicar… que o homem chegará ao ponto de ser Deus, mas quando ele unir… que Deus é como uma gota de azougue, se o homem vai se purificando, quando ele chegar puro…”.

 

6.20 – A PURIFICAÇÃO PELA DOR

 Pela crença atribuída aos “mistérios das palavras”, identificamos os seguintes valores: “DEUS” é o “CRIADOR”, quem “cria a dor” como meio de evolução pelo inferno da Terra, o ‘Astral Inferior; “JESUIS” é o “SALVADOR”, quem “salva da dor” com o sacrifício da cruz; o “HOMEM” é o “PECADOR”, quem “pega a dor” – assim sendo, Deus criou a dor para a salvação, por isso o homem deve senti-la desde sua infância por cada ato de rebeldia, até se tornar “manso”.

 

(…)

 

6.21 – PONDERAÇÕES FINAIS: REFLEXÕES SOBRE A DOUTRINA RACISTA DE EUGENIA

 Este trabalho buscou tecer uma narrativa da travessia humana de José Gabriel da Costa, identificar seu processo de iniciação à Ayahuasca, o contexto social de formação da União do Vegetal e ainda investigar a formação do campo doutrinário em seu complexo sistema religioso. Em nossa compreensão outras perspectivas de trabalho são latentes, por ora faremos o apontamento de algumas a fim de colaborar com as novas investigações. Preponderantemente duas linhas de pesquisa se sobressaem, uma destinada à análise das relações sociais no interior das comunidades identificadas como União do Vegetal, outra com foco na herança das tradições xamânicas e umbandistas no imaginário religioso. Sobre as relações sociais, apontamos a pesquisa sobre alguns aspectos…

 

(…)

 

O caso da doutrina racista deve ser analisado com toda a seriedade que o tema exige, inclusive pelos responsáveis constituídos na letra da lei para assegurar o cumprimento da Carta Magna em respeito a todos os cidadãos deste país, princípio expresso no Estatuto da Igualdade Racial e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os elementos componentes da doutrina foram expostos em sua íntegra, todos baseados em fontes advindas da própria União do Vegetal, aos discípulos que tem em seu ato de fé os valores estudados, deixamos o nosso trabalho como ponto de reflexão, sabendo que somente a partir da “Edição Final” poderemos dar um retorno aos anseios e críticas que se apresentarem.

 

(…)

 

Pelo propósito de ampliação do campo de estudo, fortalecemos nosso convite à formação de uma grande equipe multidisciplinar de trabalho, todo empenho que vier contribuir com o crescimento do conhecimento sobre a “História da Ayahuasca no Brasil” contará com nosso apoio irrestrito em compartilhar as fontes documentais.